Como escapar da
nossa própria sensibilidade diante dos problemas? Talvez a resposta seja algo do tipo: “entrando em
coma”, “usando drogas”, “morrendo”. Mas há uma resposta mais elaborada, a de tipo iluminista. Para resumir, a resposta iluminista é: sejamos
‘racionais’. Para que não haja dúvidas sobre o sentido disso, pensem que ser
racional dentro desse contexto significa saber pensar corretamente, livre das paixões e das intuições que nos chegam (na
alma) pelos aparelhos do corpo, a sensibilidade.
Pensar corretamente é pensar com método. Mas daí vem uma
confusão. Usemos um caso para abordá-la: reflitamos bem rapidamente sobre democracia.
Se partirmos do conceito genérico de democracia chegaríamos à noção racional: sistema político cujo poder é do povo ou vem do povo; a organização de cidadãos em torno de uma sociedade e de um estado deve ser
constituída a partir da vontade do povo, pressupondo a prevalência da vontade
da maioria sobre a da minoria. Países
considerados democráticos como Brasil, Estados Unidos da América, Inglaterra,
entre tantos outros, apresentam os predicados contidos no conceito de
democracia anteriormente exposto?
Muitos diriam que sim e apresentariam como
prova o fato de que nesses países democráticos os governantes e os legisladores são
escolhidos pelo povo através de eleições diretas. O povo, através do voto, “transfere”
seu poder aos governantes. Logo, o poder do povo se realiza por procuração cuja validade dura certo período. A transferência eventualmente pode vir a ser caçada.
Ao mesmo tempo, outros diriam o exato contrário: transferir seu poder por meio de voto
individual em representantes prova que todos esses países são falsas democracias.
Nesse sentido, a democracia só se realiza quando o povo, todos os membros da sociedade exercem decisões e ações diretas sobre si, o governo não funciona por meio de representação.
Qualquer que seja a avaliação sobre a questão da democracia, quanto
ao seu conteúdo naturalmente, a avaliação só é possível por meio da relação
entre corpos/forças. Ela nunca se resume aos quadros essencialmente lógicos. Daí a confusão sobre a questão de se há ou não uma democracia no Brasil. Nossa resposta sempre será uma função que atrela o conceito que exposamos e a nossa experiência.
O que vivenciamos no trabalho, no lar, no campo e na cidade permite que defendamos a existência de democracia no Brasil?
Até que ponto o poder no Brasil vem do povo? Até que ponto a vontade da maioria é
realizada? Digamos que existam empresas e organizações que tem grande
capacidade de convencimento sobre a maioria do povo, como sofistas na Grécia
antiga que discursavam ou ensinavam a discursar em praça pública de modo que
certas vontades/verdades fossem defendidas pela maioria dos cidadãos. Quem são os sofistas
de hoje (trabalhemos com o sentido negativo de sofista neste texto)?
Reconhecer a existência de democracia no Brasil porque o povo elege seus governantes e que nela ganhar
a maioria do voto dos membros da sociedade e de seus representantes significa que a democracia se
realiza? Se há máquinas que produzem maiorias, como confiar que a vontade da
maioria não é mera reprodução da vontade de uma brutal minoria? Controle a
máquina e controlará a vontade da maioria. O controle é exercido por uma classe social? Por um grupo étnico? Uma facção religiosa? Por uma nacionalidade?
Essa confusão é
tamanha que de fato o mundo é um vale tudo. Roubar, matar, caluniar, guerrear,
manipular, suicidar, deixar matar, deixar morrer, prender, violentar, usurpar, lucrar na
bolsa de valores, etc. Nem a Presidenta da República Dilma Rousseff escapa do
mundo, ela faz parte dele. Vejam a confusão: a maioria dos eleitores no Brasil
escolheram Dilma. Escolheram também uma Câmara dos Deputados que quer, em sua
maioria, retirá-la do cargo. A grande mídia nacional apoia a ação parlamentar;
a pequena chama esse movimento de golpe. O discurso da pequena mídia nacional
ganha projeção internacional, e a mídia internacional acusa a grande mídia nacional de golpista. A maioria da
população se põe contra a ação parlamentar através de numerosos movimentos de
rua, mas os parlamentares dizem que representam a maioria da população, que não estão nas ruas. A
grande mídia diz que os parlamentares estão certos. Um setor diz que a
Constituição é clara e que sua vontade de destituição da presidenta é legítima.
Outro setor diz que a Constituição é clara e que a vontade de destituição é
ilegítima. A grande mídia diz que é legítima a ação parlamentar do ponto de
vista jurídico, e produzem nos lares do Brasil a opinião majoritária. Confuso, não?
Essas
confusões devem ser louvadas? Isto é, se há posições que podem se manifestar significa
que há democracia no Brasil? Ou, o caráter dessas confusões indica que não há
democracia no Brasil?
Poderíamos louvar a confusão e defender essa democracia por um ponto de vista estético, exaltando seu caráter trágico. Isto também seria agir
racionalmente. Entretanto, o quadro é extremamente desagradável, nossa sensibilidade não pode ser negligenciada. Há cidadãos
morrendo por milícias compostas por policiais pelo fato deles tentarem agir
democraticamente. Há torturadores sendo louvados como heróis da república. Há representantes que dizem defender o interesse da maioria, mas defendem apenas os interesses de empresários avarentos. Defender essa estética é complicado, pois além disso temos todo o quadro de miserabilidade, violência, fome, caos urbano, latifúndio, etc.
Daí os
fascismos: agir segundo a tradição. Não que a tradição seja um mal em si, mas seus defensores geralmente esquecem de que há outras tradições e que nem todas desejam
possuir caráter universal. A grande violência vem das tradições que se fazem
porta-vozes de um caráter universal. Elas querem ordenar o caos. Parece que democracia não é valor universal. Seja como for, parece que o que aí está precisa ser transformado. O sentido da transformação será expressada por meio de qual palavra?
Diante desse
confuso quadro confuso que é o presente, pergunto: O que significa defender a
democracia? Sua resposta é meramente racional e exclui sua sensibilidade?
O Chorume (escrito em Presidente Prudente
– 22/04/2016).
